domingo, 25 de outubro de 2009

O ADITIVO

“Um vinho, diz-se aliás, é embaixador de um território, sobretudo se indica no rótulo isso mesmo, e é velha a “guerra” no mundo por causa dos vinhos de região e do modo como são produzidos numa dada zona e com os recursos dela.
Ele indica, ou deve indicar, e manifestar a identidade de uma terra, das suas gentes e usos, pois o vinho é um produto cultural, com impacto profundo na cultura de uma dada região e não apenas nas carteiras de quem está envolvido nos seus negócios.
Ora acontece que, aí há uns anos, alguns países europeus menos abonados de sol e de uvas, tentaram fazer aprovar, em regulamento comunitário, a possibilidade de se fazer vinho de um modo que era mais “a martelo” que uma tábua cheia de pregos.
A consequência é simples de explicar: Uma “coisa”, assim fabricada, iria concorrer com os vinhos produzidos com labuta, conhecimento e arte, nos países onde o vinho tem condições para ser produzido naturalmente, digamos assim.
A pressão dos países do Sul aguentou a investida maior, mas deixou sequelas. Uma delas é a possibilidade de adição, no acto de produção de um vinho de uma dada região, de mosto concentrado proveniente doutra região.
O objectivo é o de, com isso, obter vinho mais assim ou assado, nomeadamente um pouco mais alcoólico, compensando ou alterando as características do que seria produzido localmente, sem recurso a isso.
Ora, quando eu procuro um vinho alentejano ou duriense, dos Biscoitos, das Beiras, ou do Pico, espero um dado resultado e uma dada personalidade do produto.
Se me dizem, afinal, que o vinho é de um sítio, mas feito com o recurso, pequeno que seja, a mosto concentrado doutro bem longe, o vinho acaba por ser donde?
Seria por isso importante que, em todos os casos em que se aceite a inclusão de materiais, provenientes doutras zonas do território de um país, doutros pontos da União Europeia, ou até do Mundo, se desse conhecimento do acto, para informação dos potenciais clientes.
È pena que isto aconteça mas, já que a possibilidade deste – a meu ver, imbróglio - foi aberta pela União Europeia, ao menos que - e seguindo a sugestão de um conceituado chefe de cozinha português, - se coloque no rótulo, a par da indicação “contém sulfitos”, benéfica para a saúde, qualquer coisa como: “realizado com o contributo de mosto concentrado externo à região demarcada”, benéfica para a cultura, identidade e turismo.
Ou, em alternativa, que os que não fazem isso sejam livres de indicar essa diferença nos seus rótulos.
Ficaremos todos a saber, afinal, de que produto se está a falar, o que estamos a comprar e a recomendar, com muito mais clareza do que agora.
Sobretudo quando o turismo cultural é considerado esteio de desenvolvimento, todas estas coisas importam.”

Francisco dos Reis Maduro-Dias In Revista do Diário Insular de 13 de Setembro de 2009
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