quarta-feira, 18 de maio de 2011

A ALCATRA É UMA ESPECIALIDADE TERCEIRENSE QUE HONRA PORTUGAL INTEIRO


Freguesia da Serreta- Restaurante Ti Choa

Com as típicas festas açorianas em honra do Divino Espírito Santo, tão nitidamente marcadas, ainda hoje, por uma ancestralidade de cinco séculos e cujas expressões entroncam nas festas medievais portuguesas e europeias, surgiram as práticas de caridade comunitária em que tudo era conferido “por amor de Deus”.

Em plena abundância de “pão, carne e vinho” e constituindo como que a apoteose da cozinha regional dos Açores num ciclo gastronómico partilhado extensamente, em quantidades e qualidade, por todas as populações – família e família e casa e casa - , a Alcatra é uma confecção culinária de carne, cuja receita, nas suas variantes, se encontra correctamente fixada e se pratica com os necessários requintes para um ponderado sabor, na ilha Terceira. 

Essencialmente, a Alcatra resulta da confecção de uma carne de vaca coberta de vinho e acompanhada de tiras de toucinho de fumo, cebola, alho, louro, e sal, num alguidar de barro grosseiro não vidrado e submetida ao influxo de várias especiarias durante tríplice processo de assamento, coacção e estufamento em forno de pão, aquecido a lenha, e cujo apuramento se garante pela protecção de uma folha vegetal espessa.


Terra eleita de pastagens, ao longo do meio milénio do seu povoamento e desenvolvimento agro-pecuário, a tão verdial Ilha Terceira viveu sempre no orgulho dos pastores de gados de leite e breve. Era e é cada vez mais uma terra em que, na culinária, a carne entrava em qualidade e quantidade.

A Alcatra é prato de “função”, isto é, da lauta refeição servida pelos “imperadores” das festas do Espírito Santo. Impondo-se não só pelas suas qualidades de degustação e de odor esquisito como também pela fartura prestes que representa à mesa, o seu uso alargou-se a festas de índole diversa e, geograficamente, não se cinge à Terceira e aos Açores, pois que o açoriano levou-a aonde quer que vá e com ela preenche a saudade da terra nas grandes festas comunitárias do Espírito Santo na Califórnia, no Brasil, em Angola, na Nova Inglaterra e até na Austrália.

In “Banquete” – Revista Portuguesa de Culinária- 1972.

Continua

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